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Os Livros da Minha Vida – II

24 Janeiro 2006

Continuação do post anterior…

:: Os Livros da Minha Vida – II ::

.: Onde o Homem e o Elemento se Tocam :.

No fim, o que podemos dizer é que cada elemento é único e irrepetível como cada uma das páginas da vida pautadas pelas histórias do livro. Como o hidrogénio, a verdadeira lâmpada de Aladino, tão presente no princípio do universo como no princípio da vida, tanto no infinitamente grande como no infinitamente pequeno, tanto na eternidade longínqua das estrelas como na cristalina liquidez dos oceanos.

Outros podem ser pobres, cinzentos e pouco imaginativos, dúcteis e variáveis como o zinco ou francos e fortes como o ferro; mas também irmãos gémeos, quase idênticos, como o sódio e o potássio, a que um quase nada mínimo faz a diferença máxima; ou, ainda, nobres como o níquel, de que as moedas são feitas, sepultado nas toneladas de rocha do Piemonte que fazem o sonho e o desejo dos garimpeiros noctívagos, perdidos entre a química e a magia branca; ou como o chumbo e o mercúrio dos alquimistas – do chumbo como pedra filosofal e quinta essência susceptível da miraculosa transmutação em ouro e do mercúrio volátil, bizarro e fugidio mas, indispensável como elemento fulcral, na manipulação mágica dos sonhadores mais impenitentes.

Mas também o fósforo, o portador da luz que vive na inteligência iluminada dos homens, ou o ouro, esse sonho precioso e imperecível que habita a memória dos desgraçados e dos prisioneiros, e, porque não, o prosaico césio das pedras de isqueiro… o crómio anacrónico, benéfico mas poluente… o prestável enxofre das vinhas… e o eterno arsénico de todas as Bovarys e de todos os Bórgias…

Ou ainda o azoto, o asséptico azoto, o inocente azoto, o assimilável azoto. O azoto, esse fecundo alimento da vida, a evolar-se nos campos de Auschwitz «a passar do ar para as plantas, destas para os animais e dos animais para nós».

São muitas histórias mas são sobretudo a história de uma época: do advento do fascismo e do nazismo, desse tempo de intolerância e exclusão, de ódio e demência.

E lá estão Hitler e Mussolini, Salô e a Gestapo, Varsóvia e Auschwitz. Mas também Gramsci e Leninegrado, os “partigiani” e a libertação. E o retorno ao curso quase normal da vida simbolizado nas três últimas histórias: a prata do inesperado reencontro com os colegas do curso de vinte e cinco anos antes; o vanádio do confronto definitivo com o passado de horror e do arrependimento e perdão adiados; e, por fim, o carbono da certeza de que a vida vale sempre a pena porque o milagre repetido da sua realização é um ciclo tão particularmente elaborado que jamais caberá ao homem quebrá-lo.

Bárbara Vale-Frias
20 Jan 2006

Fonte das Imagens:
Primo Levi the ChemistNota: Este texto está publicado no Sublimações, blogue da Bárbara Vale-Frias.

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