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Os Livros da Minha Vida – I

22 Janeiro 2006

:: Os Livros da Minha Vida – I ::

Leitora compulsiva, faço de cada novo dia uma alvorada aberta à pescaria do aprazível e do surpreendente. Sabendo, contudo, que raramente o mergulho ou a lançada satisfará as minhas expectativas iniciais até que uma pérola, trazida à tona das profundezas anónimas de uma qualquer estante, revele, finalmente, o seu brilho e tudo o resto se mostre supérfluo, efémero, dispensável e vago.

Depois, há livros que são como carne-viva: pungentes e dilacerantes como golpes, cortando cerce o marasmo quotidiano das nossas vidas; capciosos perturbadores das nossas inocências; avisadores sublimes dos devires mais absurdos e improváveis com que nunca sonhamos.

.: O Sistema Periódico, de Primo Levi :.

“O Sistema Periódico”, que li fez agora cinco anos, revelou-se-me, de forma brutal, límpida e desconfortável, como uma alegoria e uma parábola; como uma experiência pessoal de vida, única, particular e rica, mas também contraditória, porque Primo Levi carrega, ainda, a canga fascista, que marcou intensamente a primeira parte da sua existência, sem nunca dela conseguir libertar-se inteiramente.

Mas “O Sistema Periódico” é, também, o percurso que vai de árgon, o “ocioso”, a carbono, o “laborioso”: desse gás elementar, raro, inerte, imprestável e gratuito, tão desinteressante quanto os seus antepassados judeus, atavicamente fechados sobre si próprio, aristocratas pungentes cercados de gentios, enquistados no seu auto-convencimento bíblico de povo eleito; até ao democrático e prolixo carbono, esse elemento vital por excelência, que se realiza na integração permanente e solidária, mas, acima de tudo, porque «é o único capaz de ligar-se a si mesmo em longas cadeias estáveis».

E é entre esse árgon, aristocrático e decadente, e este outro carbono, liberal e emblemático, que se decide a vida de Levi, erguida a pulso no interior da negra noite fascista.

.: A Química de uma Vida :.

São vinte e uma histórias de um químico mais do que de química. São histórias da vida vivida, sonhada e sofrida do autor; do seu purgatório, inferno e redenção e do modo como foi possível ultrapassar com êxito o círculo apertado das suas limitações originais.

Mas, se formos ao fundo da questão, são, também, vinte e uma histórias alquímicas, narradas com imaginação mas também com muito suor e algumas lágrimas, realizadas à margem dos grandes meios laboratoriais, para lá dos holofotes, quase na clandestinidade, num tempo de cegueira colectiva e egoísmo larvar, de medo, angústia, horror e contida ressurreição.

Por tudo isto, o autor pode, desde o início, interrogar-se: o que sabemos de árgon? – desse gás ocioso que supomos na displicência diletante do ar que respiramos -; qual a função que a sua raridade supõe e a sua nobreza obriga? – talvez apenas a reminiscência longínqua da sua inércia ou a auto-suficiência arrogante da sua abstenção. E, no entanto, estamos na presença de um gás que existe no ar, numa proporção trinta vezes maior que o anidrido carbónico, sem o qual a vida não se realizaria na Terra.

Estas são as interrogações que marcam o início da parábola porque, com elas, podemos igualmente interrogar-nos como foi possível a eclosão e a dominação do nazismo na Europa e, particularmente, do fascismo em Itália, e respondermos, senão pelo alheamento, cedência, alienação e inépcia de quase todos.

Continua…

Bárbara Vale-Frias

20 Jan 2006

Fonte das Imagens:
Submarino – Livraria on-line
Milleanni di Scienza in Italia
Omaggio a Primo Levi

Nota: Este texto está publicado no Sublimações, blogue da Bárbara Vale-Frias.

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