h1

Ciência na Arte e Arte na Ciência – I

6 Novembro 2005

 

:: Ciência na Arte e Arte na Ciência – I ::

.: Encontros e desencontros em torno de uma obra de arte :.

 

Arte, ciência, criatividade e uma conversa…

Pareceu-me uma proposta aliciante e uma boa oportunidade para ver respondidas perguntas, como: O que é uma obra de arte? A ciência é também arte? A arte tem ciência? São duas culturas? Ou fazem parte de uma e mesma Cultura?

A Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) está a promover actividades complementares à exposição À Luz de Einstein e, no dia 27 de Outubro, propôs uma conversa em volta de uma obra de arte. Será estética a ciência? Há uma estética na ciência? Existe ciência na estética? Estas e outras questões foram deixadas no ar por João Caraça, director do Serviço de Ciência da FCG.

A obra de arte é uma escultura e intitula-se There is no easy way to Mars. O seu nascimento deu-se a partir de fenómenos ópticos e da utilização de filtros polarizadores lineares (utilizados, por exemplo, em câmaras fotográficas, para filtrar a luz), explicou o seu autor João Paulo Feliciano.

Sobre a dita obra não fiquei a conhecer muito mais. Tenho formação científica e foi muito difícil descodificar a mensagem artística. Confesso a minha desilusão neste aspecto. Não foi o único motivo. Muita falta fez a projecção de uma imagem da dita escultura, que serviu de pretexto à conversa. Pensando bem não lhe devo chamar conversa. Não foi uma conversa que ali aconteceu. Cada um dos convidados expôs a sua opinião, sem haver diálogo e troca de ideias, com excepção de dois ou três momentos.

É óptimo que se promovem eventos deste género. Mesmo desapontada, não me arrependo de ter ido. Quem abre um novo caminho, como o é fazer a ponte entre estas duas áreas, arrisca-se a que alguns aspectos possam correr menos bem.João Paulo Feliciano (o autor), Nuno Faria (historiador e consultor de arte), José Brandão (designer) e Nuno Crato (matemático e divulgador de ciência) falaram da utilidade/inutilidade da ciência e da arte, das suas funções perante a natureza e o mundo que nos rodeia, da existência de estética, de especulação na arte, da descoberta e da reinvenção.

Alguns pontos chamaram-me a atenção, talvez porque me identifiquei mais com eles. Partilho aqui uma mistura do que ouvi e do que ficou comigo. O que vem a seguir pode não reflectir o que se disse à volta da mesa.

.: Reflexões sobre utilidade, descoberta, reinvenção… :.

A ciência parece ter óbvia utilidade, nem que seja apenas para compreender o ambiente à nossa volta. Por sua vez a “Arte é uma inutilidade neste sentido, mas ninguém pode passar sem ela”, explicou João Paulo Feliciano.

Já desconfiava que os designers não se incluem no ambiente artístico. Percebi finalmente porquê. O design e a arquitectura estão para a arte, como a tecnologia está para a ciência, permitindo-lhes – à arte e à ciência – uma visibilidade prática.

O design, a arquitectura e as tecnologias são os meios para que a arte e a ciência ganhem formas. Como poderia ter João Paulo Feliciano concretizado a sua escultura sem que houvesse um projecto estruturado por designers para lhe dar forma? Como poderiam os médicos analisar e estudar os ossos, sem a descoberta dos raios-X?

O cientista parte à descoberta de algo que já existe e que está mesmo à espreita para ser descodificado. Levanta questões e depois responde-lhes, ou pelo menos tenta.

O artista recria a realidade, reinventa-a, imagina e produz novos mundos. A arte surge como uma consciência dos criadores perante a natureza e não trata apenas das coisas belas. É antes uma interpretação, uma maneira de olhar o mundo. Sobretudo a arte especula, segundo o escultor.

A arte e a ciência são diferentes, mas com pontos de união que se tocam, defendeu Nuno Crato.

Hoje parece que todo o trabalho científico e artístico tem de ser justificado, o que não é de todo verdade disse o matemático e divulgador de ciência. Procurar o conhecimento pelo conhecimento é já de si justificável. Carlos Fiolhais, por exemplo, não se cansa de citar a famosa frase de Einstein: «Nunca devemos parar de fazer perguntas!».

O artista não precisa de estar “agarrada” à realidade, ao contrário do Cientista que tem a obrigação de o fazer. Mas vejamos, a arte surge da vontade de criar. E a Ciência porque surge? Não é da vontade, tantas vezes apaixonada, dos cientistas em criar novo conhecimento? Ninguém o disse, no entanto presumo que sendo assim os cientistas são também artistas, enquanto produtores de algo novo, que não era até então conhecido.

Em busca de outras opiniões o Caminhos do Conhecimento contactou Nuno Crato e João Caraça. As suas respostas serão publicadas no próximo post.

Rita Caré
5 Nov 2005

Fontes das Imagens: Fundação Calouste Gulbenkian e Lisboa Cultural

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: