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O Conhecimento a fugir

2 Novembro 2005

:: O Conhecimento a fugir ::

 

 

No Diário de Notícias de Sexta-feira passada – 28 Outubro – surgiu uma notícia, que já não espanta nenhum cientista: “Um quinto dos portugueses com ensino superior não trabalha em Portugal.”O estudo feito pelo Banco Mundial fala de indivíduos com o ensino superior e não apenas de ciência. Mas falemos apenas do caso da Ciência. A notícia espantará somente aqueles que desconhecem a situação do meio científico. Durante os primeiros anos do Governo de António Guterres, o ex-Ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, empenhou-se em promover a possibilidade de milhares de cientistas realizarem doutoramentos. Esta até parece ter sido uma medida fundamental de indiscutível importância. E foi! Mas… há sempre um “mas”.

Entretanto, já existem milhares de doutorados e, claro, a maioria está no estrangeiro. Muitos não querem sequer ouvir falar em voltar a Portugal. Outros gostavam de voltar e contribuir com o conhecimento adquirido para o avanço cientifico e tecnológico do país, mas não conseguem lugar na investigação portuguesa. E há aqueles que foram com ideia de voltar e que decidiram fazê-lo. Alguns conseguem continuar a investigar, mas os restantes (demasiados) pagam o preço de não seguirem carreiras de investigação. Não há lugar para eles e por isso cada um faz-se à vida e segue outros caminhos.

São poucos aqueles que voltam (relativamente aos que vão/foram) e que continuam na ciência. Ainda me lembro dos professores nos dizerem para irmos para o estrangeiro, pois isso é que era bom… Quando os questionávamos sobre as dificuldades de conseguirmos depois voltar, e continuar na investigação, os professores afirmavam convictamente que deveríamos partir, pois até seria provavelmente mais fácil voltarmos. Como? Como, se há Universidades a contratarem licenciados para darem aulas? Como, se as mesmas Universidades usam e abusam dos doutorandos, pagos pela FCT, para fazer investigação? Como, se há estagiários a fazer investigação de graça durante meses a fio (para não dizer anos), com a esperança de terem assim uma oportunidade profissional?

Não acham que surge aqui um grave problema social e de desperdício de financiamentos? Para quê ter-se montado uma fábrica de doutorados? Para alimentar a investigação pelo mundo fora? Gastaram-se milhões de euros para se dar, “de mão beijada”, cientistas altamente qualificados a outros países.

Tal como se empenhou nos governos de Guterres, esperamos que o ex e actual Ministro Mariano Gago se empenhe ainda mais, mas agora para arranjar uma solução de fundo, estruturada e pensada no longo prazo, para os que fazem falta à investigação em Portugal, que são cientistas de excelência lá fora, que querem voltar, mas que não têm aqui lugar. Não teríamos muito mais a ganhar?

Rita Caré – 2 Nov 2005
Fonte da Imagem: Animation Factory

3 comentários

  1. A exportação de cérebros, como é conhecida tal migração de estudantes em nível universitário, vem acontecendo aqui no Brasil, cara Rita. Faculdades, como a USP (de São Paulo), têm oferecido o doutorado a vários alunos em outros países, acarretando nesse mesmo dilema que vocês, nossos lusos amigos, possuem. Essas pessoas não enxergam que o Brasil precisa delas mais do que nunca. Porém, convenhamos que esse ufanismo nunca existiu de verdade. As pessoas ficam onde há incentivos, onde realmente têm possibilidades de sucesso profissional. Parabéns pela matéria. Um abraço.


  2. É por ser certo que as pessoas irão para onde existem incentivos, sejam financeiros ou intelectuais, que defendi a necessidade de quem de direito tomar medidas muito sérias para inverter esta situação.

    De facto, os políticos portugueses querem convencer as pessoas de que Portugal está num ds países da frente da Comunidade Europeia, quando já se sabe que quando éramos 15 países estávamos em último ou penúltimo lugar, nesta e noutras matérias. Agora que somos 25, Portugal passa e passará para a cauda da Europa. Ou se criam condições ou os “cérebros” ficarão noutros países e obviamente não irão voltar. Os que se estão a formar agora e que irão para fora, claramente não voltarão.


  3. Nem de propósito, o Ministro da Ciência e da Tecnologa e Ensino Superior deu uma entrevista no Programa “Diga lá Excelência” da Rádio Renascença e do Jornal Público, que passou na no canal 2:, no Domingo passado.

    Mariano Gago respondeu a algumas das questões abordadas neste post.

    O Público publicou ontem a entrevista. Os assinantes on-line poderão consultá-la on-line em:
    http://www.publico.clix.pt–>



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