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Entrevista – Carlos Fiolhais, um «curioso apaixonado»

4 Outubro 2005

No seguimento do artigo «Fiolhais e Einstein, “curiosos apaixonados”», ficam as respostas dadas pelo Professor Carlos Fiolhais (CF) ao Caminhos do Conhecimento (CC) sobre o lançamento do seu novo livro Curiosidade Apaixonada, publicado pela editora Gradiva, e sobre a nova exposição – Einstein entre nós: a recepção de Einstein em Portugal 1905-1955 – que irá ser inaugurada no próximo dia 14 de Outubro, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

 

 

 

 

CC – Porquê ser-se curioso?
CF – A curiosidade é aquilo que nos move a querer saber. Sem curiosidade não há ciência. Perguntaram um dia a Einstein o que é que o distinguia das outras pessoas. Ele disse que era uma pessoa como as outras, que talvez a única coisa que tinha de diferente era precisamente uma “curiosidade apaixonada”. Fui portanto buscar a Einstein o título do livro. Devemos aprender com os grandes mestres… Einstein tinha uma curiosidade obsessiva, que só a paixão transmite.

 

 

 

CC – Porque é que considera ser importante incentivar a «curiosidade apaixonada» do público?
CF – A mensagem a transmitir ao público é a de que a ciência se faz com curiosidade e paixão. Aliás isso não é exclusivo da ciência, há outras actividades humanas que se podem fazer com curiosidade e paixão…

 

 

 

CC – Manuel Paiva referiu, durante a apresentação do livro, que na Bélgica os cientistas e os professores universitários visitam escolas e dão palestras a crianças a partir dos 7 ou 8 anos. Explicou a grande importância desse tipo de actividade e comentou que esse é um exercício de humildade. Sabe-se que a generalidade dos professores do Ensino Básico, em Portugal, não estão preparados para enfrentar questões científicas nas aulas, mesmo a um nível mais elementar. Qual a sua opinião sobre os professores das escolas superiores de educação, e mesmo os professores e investigadores das universidades, estarem (ou não) preparados para apoiar e enfrentar a necessária formação desses professores e dar o apoio directo aos alunos (por exemplo, com actividades e palestras nas escolas primárias)?
CF – Manuel Paiva, no seu livro “Diálogos sobre Portugal” (em co-autoria com Mariana Pereira, Editora Livros e Leituras) já tinha dito que a ciência no básico era muito importante. Eu estou completamente de acordo: o básico é básico e a ciência não tem sido aí devidamente tratada. É preciso por isso aproximar a escola básica da ciência, ajudando muito a presença dos cientistas nas escolas, onde poderão mostrar um bocadinho da sua “curiosidade apaixonada”. Muitos estão dispostos a ir, preocupados como estão com a actual realidade do ensino. Mas os cientistas vão lá e voltam. É preciso que a ciência lá fique para o que é essencial: a formação inicial e contínua dos professores do básico.

A formação de professores nos assuntos científicos tem de ser feita por pessoas que saibam dos assuntos. Quero eu dizer com isto que não pode nem deve haver qualquer antagonismo entre escolas superiores de educação e escolas universitárias: o essencial é que, por exemplo, sejam pessoas com formação pós-graduada em matemática (com mestrados ou doutoramentos), estejam elas nas escolas superiores de educação ou noutras, a passar a sua “curiosidade apaixonada” pela matemática aos professores do básico. É preciso ultrapassar o “ensinar a ensinar” e o “aprender a aprender” que tem dominado, e cujos infelizes resultados estão à vista.

 

 

 

 

CC – Ninguém fica indiferente ao olhar a capa do novo livro “Curiosidade Apaixonada” – ao lado de Einstein está Marilyn Monroe. A actriz foi marcante na vida do cientista? Ou terá sido Albert Einstein importante para ela?
CF – A Marilyn Monroe chama a atenção para o livro, se o Einstein não for suficiente. Há uma breve alusão a ela no livro, a propósito do seu casamento com o escritor Arthur Miller, falecido há pouco. Recordo que Miller era judeu (como Einstein) e que Monroe se converteu ao judaísmo antes do referido casamento. Bem, além dessa relação pelo lado do judaísmo, Einstein e Monroe são contemporâneos.

Parece que nunca se encontraram pessoalmente. Marilyn faleceu relativamente nova e foi encontrada no seu espólio uma foto de Einstein e uma lista de homens que ela achava interessantes, onde figurava o nome do sábio. Os dois fazem parte da iconografia do século XX e há artistas, como Warhol, que os representaram juntos. Há um filme (“Insignificance”) e uma peça de teatro em que Monroe procura ensinar relatividade a Einstein. Talvez haja alguém curioso em aprofundar a investigação sobre a relação entre os dois…

 

CC – Sobre a exposição que está a preparar sobre Einstein, quais são as mais valias que esta exposição terá em relação a outras que estiveram ou que estão patentes em Portugal, no contexto do Ano Internacional da Física 2005? Quando será inaugurada e onde poderá ser visitada?

CF – A exposição Einstein entre nós: a recepção de Einstein em Portugal 1905-1955 irá estar patente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e é a única feita em Portugal, neste Ano Mundial da Física, que mostra o modo como Einstein foi recebido entre nós. Sobre a recepção física ao cientista não há muito a dizer. Einstein passou por Lisboa à ida e à volta de uma viagem à América do Sul em 1925. Quase que não reparam nele, apesar de já ser famoso na altura. Mas houve, antes e depois dessa data, alguns filósofos, cientistas, militares, professores, homens da cultura que “absorveram” a obra de Einstein e a transmitiram aqui.

Curioso é decerto o facto de o eclipse que confirma a teoria da relatividade geral ter ocorrido na ilha do Príncipe, um território então sob administração portuguesa, em 1919. Não houve participação portuguesa activa na expedição, mas o Observatório de Lisboa chegou a fazer uma tentativa noutra altura de confirmação da teoria da relatividade. Curiosa é também, por exemplo, a polémica que houve entre o almirante Gago Coutinho e o matemático Ruy Luís Gomes (de quem este ano se comemoram os cem anos do nascimento) a propósito da validade da relatividade. Essa polémica deu-se em jornais culturais, o que mostra que nos anos 20 e 30 já havia, ainda que de forma tímida, cultura científica em Portugal.

A exposição – que mostra muitos documentos e publicações originais – pode ser visitada pelo público de 14 de Outubro a 30 de Novembro.

Todos são bem-vindos!

 

 

Rita Caré entrevistou Carlos Fiolhais por e-mail e fez a edição do texto
4 Out 2005

Fonte da Foto: Fundação Mário Soares
Fonte dos posters: Carlos Fiolhais

 

Para saber mais…

Página Pessoal de Carlos Fiolhais
Carlos Fiolhais. (2005) Einstein entre nós. Rua Larga – Revista da Universidade de Coimbra. Nº 9.

Para ler o artigo “Fiolhais e Einstein – «curiosos apaixonados» visite o Post

 

One comment

  1. Rita,

    Parabéns pela entrevista, está muito interessante!

    E o site também, com toda esta dinâmica!

    beijinhos,

    margarida



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