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Comentários ao Nobel da Fisiologia e Medicina

3 Outubro 2005

Após a publicação do artigo anterior – Nobel da Fisiologia e Medicina 2005 – ficam aqui os comentários feitos à Agência Lusa pelo oncologista Evaristo Sanches, do Grupo de Investigação do Cancro Digestivo, e do patologista Manuel Sobrinho Simões, do IPATIMUP.

:: Grande estímulo para a investigação ::
Evaristo Sanches
Grupo de Investigação do Cancro Digestivo

O oncologista Evaristo Sanches considerou hoje um “grande estímulo para a investigação” a atribuição do Nobel da Medicina aos australianos que descobriram a bactéria responsável por gastrites, úlceras do estômago e do duodeno.

Evaristo Sanches, do Grupo de Investigação do Cancro Digestivo, congratulou-se com o anúncio feito hoje em Estocolmo da atribuição do Prémio Nobel da Medicina de 2005 aos patologistas Barry J. Marshall e J.Robin Warren pela descoberta da bactéria Helicobacter pylori. “Acho que o prémio é muito bem atribuído. Esta descoberta representou um avanço muito significativo para a medicina, nomeadamente para a prevenção do cancro gástrico”, defendeu Evaristo Sanches.

A identificação da bactéria Helicobacter pylori, em 1982, é considerada um dos acontecimentos científicos mais relevantes dos últimos 25 anos, segundo a Assembleia Nobel. O oncologista considera que a atribuição do galardão “representa um estímulo para que se continue na investigação e no trabalho de prevenção”. A descoberta da bactéria e da sua relação com doenças gástricas permite um tratamento correcto de gastrites, assim como a prevenção do cancro gástrico, sublinhou.

Fonte: Agência Lusa / 03-10-2005 15:38:00 / Notícia SIR-7371796
Fonte da Imagem: IPOFG-CRO Porto

:: Reconhecimento de “descoberta extraordinária” ::
Sobrinho Simões
IPATIMUT – Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto

O patologista Sobrinho Simões considerou “justíssima” a atribuição do Nobel da Medicina aos australianos Barry Marshall e Robin Warren, manifestando-se “felicíssimo” pelo reconhecimento de uma “descoberta extraordinária” que permitiu curar a gastrite e a úlcera do estômago. “Não me lembro em toda a minha vida de ter ficado tão feliz com um prémio destes como fiquei agora”, afirmou.

Na opinião de Sobrinho Simões, que dirige o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), esta foi uma descoberta extraordinária, mas “muito simples”, porque os dois médicos “limitaram-se a observar a realidade”. Os clínicos faziam biopsias a doentes com gastrites e viam sempre a mesma bactéria – Helicobacter pylori – o que os levou não só a identificar o agente, como também a relacioná-lo com as doenças. A partir daí, doenças que se tratavam apenas com cirurgia e que normalmente eram recidivas, passaram a curar-se definitivamente apenas com antibiótico, explicou.

Sobrinho Simões sublinhou a “justiça absoluta” deste galardão para os dois investigadores, que foram totalmente desacreditados na altura da sua descoberta (1982). “Na altura todos pensavam que já não havia bactérias para descobrir e andavam a estudar vírus, por isso ninguém acreditava neles. Chamaram-lhes de tudo”, disse, elogiando a sua “perseverança”.

No fundo, esta foi uma “descoberta anacrónica” (contra o tempo) e foi “humilhante que não tivesse sido descoberta antes”. Sobrinho Simões, especialista também em patologia do estômago, congratulou-se com este Nobel “por recompensar pessoas que na medicina vêem doentes”, já que Warren e Marshall “eram clínicos que ouviam atentamente os doentes, faziam perguntas inteligentes e procuravam respostas”. “Só estamos habituados a ver atribuir prémios a investigadores que fazem descobertas sofisticadas”, disse, defendendo que um prémio destes “reforça a auto-estima das pessoas que fazem clínica”.

Comentando o atribuição do Nobel mais de 20 anos após a descoberta de Warren e Marshall, Sobrinho Simões entende que esta “não veio tarde”. “Veio na altura certa porque deu tempo para consolidar a descoberta e despertar uma quantidade enorme de novas investigações”, nomeadamente saber se a Helicobacter pylori está associada a outras doenças.

Hoje sabe-se, por exemplo, que a bactéria está associada ao cancro do estômago, mas também que quem tem úlcera do duodeno provocada pela Helicobacter pylori nunca desenvolve esse tipo de carcinoma, referiu. “Hoje em dia a produção científica a partir desta descoberta é uma coisa extraordinária. É um campo onde ainda há muito por descobrir”, frisou.

O prémio, no valor de 10 milhões de coroas suecas (1,1 milhões de euros), será entregue a 10 de Dezembro, data do aniversário da morte de Alfred Nobel, fundador dos galardões.

Fonte: Agência Lusa / 03-10-2005 16:16:00. Notícia SIR-7371721
Fonte da Imagem: http://lazer.publico.pt/porto2001/entrevistas/entrevista0010.html

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